sábado, 14 de março de 2009

Um mundo que não existe mais

Lembro-me ainda da minha infância, quando pulava nos bancos de areia do bairro onde eu cresci. Meus primos, colegas e eu brincávamos de fazer bonequinhos com o barro da barreira que ficava atrás da casa de vovó. Depois de completamente imundos, abríamos a torneira e tomávamos banho com a mangueira pra tirar o excesso de lama antes de entrar no banheiro. De noite era bom olhar as estrelas e imaginar que figura formavam as nuvens lá em cima. Sabíamos os segredos uns dos outros e toda vez que alguém ficava triste, cada um vinha e consolava, insistia e depois todo mundo começava a sorrir de novo. Comíamos juntos, dormíamos juntos e quando havia relâmpago e trovão a gente se abraçava e depois ria e voltava a dormir de novo. De manhã, briga de travesseiro e no domingo vovó preparava algo especial pra comermos. Uma vez fiquei triste porque as férias haviam acabado e teria que voltar pra casa. Cresci e vieram as responsabilidades e eu me perdi num mundo que não existia mais. Um mundo onde as pessoas conversam pela "lateral" e não se olham mais nos olhos. A existência ficou restrita a uma gama de conveniências onde se preza pelo "ter" e não pelo "ser". Onde nos escondemos? Por que chegamos ao ponto de, como vi um dia desses, uns caras chamarem o amigo de gay por ter beijado o irmão no rosto. A violência aumentou e aí os pais começaram a matar os filhos e vice e versa. O garoto assassinado pelo amigo de infância e o dinheiro começou a falar mais alto que o caráter. As pessoas bebem pra esquecer os problemas que no outro dia retornam numa fuga sem fim ou "ficam" com quem tiver na frente só pra provarem pros outros que andam na "onda " deste novo tempo. Acho que eu não sou mais mim. Acho que nós não somos mais nós. Falta-nos um pedaço. Não falo de amor pra não parecer romântico demais e nem de afeto e carinho pra também não ser dramático. Falo de VIDA: onde ela foi parar? num mundo tenebroso em que a felicidade ficou fragmentada e é instantânea a ponto de, se passar "pegue" senão ela vai embora e não é mais. Fiquei restrito só aos momentos da minha mente. Daquele toque, daquele cheiro, do beijo da última garota que fiquei, do último apertar de mão, do último abraço, do último "eu te amo". Já foi, só me resta a expectativa. Quero agora ficar bem perto dos novos. Ficar com eles é o meu consolo. O novo é sempre bom, sempre esperançoso. Um mundo que não existe mais, existe pra aqueles que ainda sentem frio na barriga quando vêem uma garota.

Um comentário:

  1. Belo.
    "A felicidade ficou fragmentada e é instantânea" calou fundo. Pensava hoje sobre "migalhas de felicidade".

    Muito bom!
    ^^

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