domingo, 8 de novembro de 2009

Olhos

"Os olhos são o centro do corpo. Se os teus olhos forem bons, o teu corpo terá luz, se porém teus olhos forem maus, todo o teu corpo será tenebroso."

Tenho oportunidade de lidar com muitos olhos. Eles já me disseram muita coisa. Já os vi molhados, lívidos, resignados, sombrios, meigos, ausentes. Os olhos costumam me dizer muita coisa, embora eu não tenha o talento nato para identificar sentimentos quando os vejo logo assim de cara. Requer tempo, conhecimento. Mas, escrevo esse simples texto, bom, primeiro porque fui obrigado, depois porque quero mostrar pelo excerto inicial o lado inverso da moeda. Geralmente, queremos decifrar as pessoas pelos olhos. Na minha análise, no entanto, quero partir do uso com que fazemos deles. Será que os nossos olhos observam tudo? ou será que enxergam apenas o que querem enxergar? será que se limitam às coisas 'visíveis'? Nossos olhos têm observado o mundo? um mundo? muitos mundos? mundos inexistentes? mundos idealizados? Para que perspectiva nossos olhos nos levam? Faço a mim mesmo todos os dias essas perguntas. Estamos numa época vazia, de fugas, em que os olhos se deslumbram facilmente com pouco. Em que estamos substituindo a importância crucial dos pequenos gestos por coisas fúteis. Coisas que enchem nossos olhos apenas temporariamente. Que fazem com que andemos por aí desperdiçando os "eu te amo" a torto e a direito. Os olhos podem nos enganar, nos iludir, nos fazer sofrer, por algo que exige uma simples questão de readaptação dos "olhares". Meus olhos já me enganaram muito, e ainda continuam me enganando. Cuidado com o que você vê. Cuidado, principalmente, com o que você interpreta quando vê. Uso os olhos para sentir. Hoje, me lembrei que tinha de escrever sobre olhos, me olhei no espelho, e vi que havia uma terrível constatação: a imagem no espelho estava torta. Eu preciso olhar melhor.

Mar revolto

Sempre que se pensa em Mar, surge logo a ideia de tranquilidade e calma. As pessoas vão, às vezes, passear pela praia e contemplam o mar, no seu "vai e vem infinito" como canta Lulu Santos. Os casais, em nostalgia polvorosa, adentram aos mitos da lua que brilha sobre ele, palco de suas fantasias de paixão. Todavia, o mar significa muito mais do que simplesmente uma bela paisagem. Atualmente, sinto como se estivesse dentro de um barquinho pequeno, bem no meio do oceano. Este oceano se revolta, sofrendo tempestades ininterruptas. O barquinho está a ponto de se virar, entra muita água, há muita luta, apesar de meus poucos recursos não permito que o mar o faça submergir. De manhã, ele está mais calmo, minha missão se restringe a contemplá-lo, e aí eu consigo admirá-lo. À noite, torna-se mais perigoso, suas tempestades me fazem ter medo, muito medo. Estou só. Eu e as tempestades. Tenho apenas o barco que me sustenta. Tenho apenas a chance de esperar passar a noite e desfrutar da luz da aurora. Mas tenho esperança. Esperança de que no meio do imenso e infinito mar, eu aviste outro barco, quem sabe uma embarcação maior, mais forte, mais poderosa, que contemple comigo o mar, que me ajude a remover a água nas noites revoltas, que faça com que não pareça tão árduo viver, sozinho, naquele barquinho, e juntos possamos passar pelo mar. E aí, quem sabe, um dia, avistamos uma ilha...

sábado, 14 de março de 2009

Bom, mas eu sou o quê? ou desvarios de um futuro professor

Fico imaginando às vezes em ser um excelente professor. Vejo exemplos de exímios mestres que fazem sucesso e são prestigiados pela profissão e pessoas do meio e tudo mais. Alguns quando entram na sala chego a me arrepiar e aí me dá mais vontade de sê-lo. Bem, sabemos que querer é diferente de ser. Não sei se realmente posso ser um professor, se posso revolucionar os rumos da educação brasileira. Afinal de contas o que eu tenho mais que os outros? Absolutamente nada. Nada mesmo. Estou aqui e ainda nem li tudo que era pra ler e sempre tenho muita preguiça. Acho então que, na verdade, sou o falso inteligente. Eita meu Deus é isso! que triste constatação! Falar palavras difíceis e querer discernir assuntos diversos dando-lhes um valor filosófico não é falsa inteligência? Suponho que sim! que idiota! pegar umas palavrinhas aqui, outras ali, dar um bom discurso, ou uma modinha de oratória e achar que pode ser professor! balbúrdia minha! mas eu deveria ser mais humilde. Poxa mas eu não sou bolas! e se eu tenho a falsa humildade? Dar um ar de superior. Mas eu tenho os complexos, o de feiúra e o de inferioridade. Então dá pra equilibrar não é? até porque tudo tem que ter uma compensação. Espero que eu consiga ser professor, logo eu, como meu discurso de bom moço e a minha simpatia desenfreada; eu com meus excessos e meus maneirismos, minha tolice e minha raiva. Ser professor é ter contato. Captar situações as mais diversas. Eu sou o remanescente. Eu enviesado, a la degradeé. Era pra ser Professor Adson, agora vai ser louco, perdido num mundo de sonhos....

Pra sair do básico

Nem tudo é tão ruim assim. A menina da esquina toda vez olha pela fresta da janela quando eu passo em sua casa. Ela sorri e quando eu olho tira a vista. Já procuro passar na hora certinha, pra vê-la de novo. No ônibus fico pensando se ela saísse, assim de repente, e me desse um oi, um oi covincente...entendem sim? Ou ainda mais surreal: ela pula da janela, abre o portão, corre e pula nos meus braços e me dá um beijo! Coisa de filme de comédia-romântica...e eu fico imaginando no ônibus, nos meus pensamentos de cara que está indo de ônibus à universidade entende? pensamentos de um cara que fica fazendo cara feia de cansaço perto da menina mais bonita do ônibus pra que ela se compadeça e pegue suas coisas, ali jaz uma chance, uma oportunidade que não pode ser descartada. É nas situações mais inusitadas que acontecem as coisas não é? Desço do ônibus tentando roçar o corpo numa menina, sei lá pra ver se ela olha ou quem sabe até...ah sei não. É o senso do olhar e do toque. Só eu mesmo. Sair de casa, entrar no ônibus, chegar na universidade, ficar lá na sala, olhando as meninas, lanchar, falar besteira, escutar besteira, depois pegar o ônibus de novo e retornar, passar pela esquina, olhar se ela olha da fresta da janela, e assim na rotina da vida, eu vou pegando as chances e quem sabe um dia funciona. Inesperadamente, é assim que funciona...

Um mundo que não existe mais

Lembro-me ainda da minha infância, quando pulava nos bancos de areia do bairro onde eu cresci. Meus primos, colegas e eu brincávamos de fazer bonequinhos com o barro da barreira que ficava atrás da casa de vovó. Depois de completamente imundos, abríamos a torneira e tomávamos banho com a mangueira pra tirar o excesso de lama antes de entrar no banheiro. De noite era bom olhar as estrelas e imaginar que figura formavam as nuvens lá em cima. Sabíamos os segredos uns dos outros e toda vez que alguém ficava triste, cada um vinha e consolava, insistia e depois todo mundo começava a sorrir de novo. Comíamos juntos, dormíamos juntos e quando havia relâmpago e trovão a gente se abraçava e depois ria e voltava a dormir de novo. De manhã, briga de travesseiro e no domingo vovó preparava algo especial pra comermos. Uma vez fiquei triste porque as férias haviam acabado e teria que voltar pra casa. Cresci e vieram as responsabilidades e eu me perdi num mundo que não existia mais. Um mundo onde as pessoas conversam pela "lateral" e não se olham mais nos olhos. A existência ficou restrita a uma gama de conveniências onde se preza pelo "ter" e não pelo "ser". Onde nos escondemos? Por que chegamos ao ponto de, como vi um dia desses, uns caras chamarem o amigo de gay por ter beijado o irmão no rosto. A violência aumentou e aí os pais começaram a matar os filhos e vice e versa. O garoto assassinado pelo amigo de infância e o dinheiro começou a falar mais alto que o caráter. As pessoas bebem pra esquecer os problemas que no outro dia retornam numa fuga sem fim ou "ficam" com quem tiver na frente só pra provarem pros outros que andam na "onda " deste novo tempo. Acho que eu não sou mais mim. Acho que nós não somos mais nós. Falta-nos um pedaço. Não falo de amor pra não parecer romântico demais e nem de afeto e carinho pra também não ser dramático. Falo de VIDA: onde ela foi parar? num mundo tenebroso em que a felicidade ficou fragmentada e é instantânea a ponto de, se passar "pegue" senão ela vai embora e não é mais. Fiquei restrito só aos momentos da minha mente. Daquele toque, daquele cheiro, do beijo da última garota que fiquei, do último apertar de mão, do último abraço, do último "eu te amo". Já foi, só me resta a expectativa. Quero agora ficar bem perto dos novos. Ficar com eles é o meu consolo. O novo é sempre bom, sempre esperançoso. Um mundo que não existe mais, existe pra aqueles que ainda sentem frio na barriga quando vêem uma garota.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Fuga

Meu maior inimigo está dentro de mim. Como eu faço pra fugir de mim mesmo? Toda hora percebo que, do meu interior, brotam todos os contrastes. Num só salto, eles explodem e me prendem. Tento escapar. Tento me agarrar, pois talvez eu me contenha. Há um abismo entre o que eu sou e todas as diferenças que estão lá fora! Me sufoca , me constange, me agride, como um estripar de pele. Soergue-se meu vazio, sai pela boca como um vulcão adormecido e que agora extrapola com toda a sua força. Mas, até quando poderei me conter? Vivo cada segundo na expectativa de que um dia eu escape. Dar uma chance à chance. Um dia, um só momento queria que fosse como eu sonhei. Só aquele instante e depois o fim. Então eu sucumbo. Me encontro e me aperto. Quero dessa vez ficar colado a mim? Me pergunto, então: o que acontece depois?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Preconceitos

Nossos rompantes e presunções às vezes prejudicam muito a forma com que enxergamos o mundo. A história já provou que passamos por tantos momentos difíceis, sobretudo o fato de ultrapassarmos muitas barreiras outrora inimagináveis, libertando-nos assim de velhos paradigmas que em tanto tempo tolheram nossa vivência. A sociedade é importante, no sentido de dar-nos equilíbrio, a fim de mantermos um convívio social ético, coerente, porém idiossincrático, para que não pareça tão imposto como o é originalmente. A presença de uma conscientização mais apurada e perspicaz faz com que desvencilhemos certos hábitos que nem sempre condizem com a nossa realidade mas com um desejo ardente de parecer corretos. Um exemplo interessante é o das pessoas, que por puro falso moralismo, ou até mesmo porque estão assustadas, enchem as ruas de cartazes com fotos de pessoas desaparecidas ou que já morreram vitimadas pela violência. O irônico reside no fato de que, em diversos casos, esses mesmos promovem um caos dentro de suas casas ou contribuem discreta e inconscientemente para o infortúnio das agressões familiares, que também são violência. Temos o estranho hábito de condenarmos aquilo que socialmente é visto como correto, todavia há dificuldade em nos voltarmos para dentro de nós mesmos e infringir à mente um contraponto que nos alertará caso passemos por determinadas situações. Nos relacionamentos, principalmente, é primordial que haja reciprocidade na compreensão de que cada um é o que é. Nossa seletividade só vai impedir que ampliemos nosso leque de oportunidades para um aperfeiçoamento do caráter construído em alicerces mais humanos e dignos. Aceitar o indivíduo como ele é e não o invalidando por pensar de forma diferente ou por ter hábitos distintos dos nossos deveria ser nossa meta. Assim, a sociedade e seus valores devem ser filtrados a fim de evitar relações extremistas e de envolvimento superficial, emergindo para um futuro mais altruísta e uma sobrevivência mais amena em face de tantos desequilíbrios encontrados no mundo. Utópico demais? Ao menos tentemos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Maniqueísmo

O mal sempre precede o bem. Se fizermos uma análise da história do mundo e de nossas próprias vidas, chegaremos à triste conclusão de que passar por veredas estreitas é típico da raça humana. Apesar disso, o homem ainda não aprendeu a se conhecer e a conviver bem com os outros. Quantos casos conhecemos de indivíduos que perpassaram lutas e desafios, enfrentaram dificuldades, conviveram com a desgraça e a desilusão e até com a morte? O mal, assim, não deve ser visto como desesperança mas como construção do caráter e aprendizado constantes. Os problemas sempre vão existir e devemos aprender a conviver com os tais e abdicar do orgulho para um altruísmo que nos enriquecerá conforme passemos pelas tribulações. Lembre-se de que para conquistar qualquer ganho, primeiro você teve que perder. Se não o fizer dessa forma, provavelmente foi barganhado com engano, ou corruptamente. Uns perderam algum dinheiro, outros ganharam a solidão, outros tiveram que sentir saudade, outros perderam uma parte do corpo, e alguns entregaram a vida. Será que nós estamos dispostos a enfrentar os males que a vida nos obriga a passar? Ou nos acovardaremos e permaneceremos sempre com os olhos do coração fechados?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Inteligência

Às vezes me pergunto se nosso conceito de inteligência é correto. Quando perguntados sobre quais pessoas admiramos em relação à sapiência, logo nos vem à mente célebres nomes. Indivíduos que superaram barreiras as mais improváveis e que transformaram as portas fechadas em janelas abertas. Lembro-me bem de uma jornalista que, em reportagem no sertão da Paraíba, perguntou a um agricultor como ele sobrevive com o analfabetismo. Ele então, pegando um pouco de água com as duas mãos, mostrou-lhe um peixinho esverdeado. A senhora sabe em que época ocorre a desova desse peixe?

Sensações

As neuroses sempre me perseguiram. Tinha medo de tudo. De ir à escola. De falar com desconhecidos, de conversar, de brigas, de trovão e relâmpago, tinha medo, muito medo. Tinha medo de viver, de enfrentar as situações mais simples que fossem. Quando adolescente tinha medo do exército. Tinha cisma com o corpo, com a cara, achava que iria morrer cedo. Assistia às tragédias, acidentes, assassinatos e pensava que logo chegaria a minha vez. Na verdade, foi tudo sempre um drama. Melindroso? talvez eu seja. E o sou realmente. Não, na verdade o fui. O que eu sempre amei mesmo foram as sensações. Era salvo por elas. Quando aturdido pelos vendavais da tão exaurida ação de viver, de passar as horas, de cruzar os momentos, ultrapassá-los ou burlá-los, a bonança chegava com o frescor das sensações. Os desejos, as atrações, os sentimentos, as pessoas (algumas, muito poucas é claro). Eram momentos raros. Era a minha fuga. Até hoje uso esses artifícios. É um mecanismo de defesa. Eu sou dissonante, inconcebível muitas vezes, mas comigo mesmo. Essas sensações que eu adquiri com a amiga solidão, me imposta já há alguns anos, me fizeram obter uma visão de mundo talvez fantasiosa, sim, mas não na sua essência. A fantasia serve para amenizar o efeito do “veneno”. A realidade serve para pôr os pés no chão, para descermos das nossas incomensuráveis galáxias de sonhos e futilidades, desespero da alma, sons difusos, contraste de sentimentos, enfim, apenas sensações.

Apresentação

Quando somos crianças não sabemos onde estão os limites entre o real e o imaginário. Já na fase adulta alguns de nós vivemos na linha tênue entre os mesmos. Outros preferem dizer “entre a realidade e a loucura”. Mas a loucura também é uma fuga. E mais, uma fuga total. É a anulação da existência. É a completa negação da vida. Não sei se forçosa, mas teimosa, sim, persistente e insistente. Eu não persegui a vida, ela quem me perseguiu. Obrigou-me a viver lado a lado, experimentando , abrindo as portas, as descobertas, intimidade, reconhecimento de sua área, sua influência, suas oportunidades, suas caras, enfim, tudo dela. Ainda me indago e ainda interrogo.
Sempre fui seletivo. A vida é seletiva. Ela escolhe a quem premiar e para que não pareça que Deus é injusto recorre-me que algumas coisas existem (e subsistem) para compensar outras. Deus é o “arquiteto”. Nós os arranha-céus, vistos no avião como bloquinhos de brinquedo. “Haja luz; e houve luz”. Depois, “façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. Nasceu a vida, semi-vida, pseudo-vida, fabricada, pré-moldada, pré-concebida, rarefeita. Hipoteticamente a forma mais inteligente da existência. Nós os homens, que pensamos que vivemos. Inteligente? Racional, talvez. Perspicácia? Pré-destinação? Audácia? Ociosidade? Mas em que circunstâncias se deu a invenção humana? Bem, não cabe a mim instá-lo. O que me impressiona é o trabalho. A força desprendida pra criar-se a mais impressionante então a mais tola das invenções. Talvez um bocejo de marasmo nos altos céus. Fez-se homem e presa nele a vida, esta que os senhores tanto anseiam, tanto lutam para permanecer, algo mais e mais a cada dia. Perscrutar-se, é o que eu faço todos os dias da minha opaca existência. Acho que todos nós já nos perguntamos, as famosas questões, indagações, blasfêmias saudáveis, cheias, infinitas, insólitas, também desprezíveis, mas suaves e amenas, compreensíveis na medida do possível. O que acontece é que estou tentando fazer os encaixes. O quebra-cabeça rendeu-me uma vida, nem tantos anos assim, o bastante para chegar a algumas conclusões e estabelecer aqui para os leitores raros alguma idéia do que seja essa confusão que nos tornamos. Vamos agora passar por todas as etapas. Nada de generalizações mas nos damos aos exemplos. Cada uma tem uma visão diferente. Há coisas que nos são comuns. É o ponto que me interessa. Estabelecer conexões.